Não lembro quando eu comecei a escrever, mas em algum momento esse hábito se tornou necessário para a minha sobrevivência. Tenho a sensação de que um pensamento colocado no papel pode ser encarado como se pela primeira vez, e que isso me ajuda a me ver de fora, como se visto por outra pessoa. Muitas vezes eu tive a sensação de só poder ter certeza do que vivi depois de escrever. O papel é um espelho mágico.
Por isso, recomendo a quem sofre que procure a sua imagem
refletida em um papel. Um bom ponto de partida é escrever tudo o que gostamos
de fazer, lembrar as coisas boas que já vivemos, tomar nota das pessoas que nos
amam ou que simplesmente gostariam de nos ver novamente. Vale a pena viver, nem
que seja para esperar a próxima boa conversa. Em seguida, pode-se tomar nota
dos planos: plano B, plano C, etc.. Não é porque o plano A não deu certo que
precisamos nos sentir fracassados. Há muitos modos de viver. E todos nós
precisamos pelo menos de um plano B.
Outra coisa importante é que a depressão pode estar na origem do
desânimo, do pessimismo e da vontade de morrer. Nem um desses fatores isolados
mata, mas a combinação deles sim, e o nome da combinação é depressão. Ela tem
efeitos químicos no corpo, e a cada dia se torna mais difícil reagir sozinho e,
portanto, mais necessário pedir ajuda. O melhor indicador de que a depressão
tomou o controle é quando perdemos a vontade de fazer qualquer coisa, mesmo as
coisas que sempre gostamos de fazer. Ir ao mercado pode parecer um desafio
insuperável. Normalmente esse estado é prolongado, pois não conseguimos
simplesmente pensar que “amanhã é outro dia”, pois tudo leva a crer que “amanhã
é o mesmo dia...”. Portanto, é preciso primeiro cuidar da depressão (com
psicoterapia que ajude a lidar com a causa emocional, e com remédios psiquiátricos
em casos extremos), e deixar para pensar na vida e na morte - um dos principais
temas da literatura... - depois. Afinal, não é racional se matar em função de
uma situação circunstancial que pode ser superada, ainda que possa durar mais
do que gostaríamos. Chegar a um resultado inevitável influenciado por um estado
emocional negativo não é pensar livremente e, portanto, não é uma decisão
racional.
No auge da depressão, aprendi a viver um dia de cada vez. Assim,
comecei a reagir gradualmente, primeiro através das metas de curto prazo, uma
por dia (ir ao banco já contava...). Coloquei no papel algumas estratégias para
sair do torpor e para superar a afasia: 1) praticar atividade física (que a
ciência já provou que contribui quimicamente para o equilíbrio emocional); 2)
encontrar pelo menos um amigo ou parente por mês, pois recuperar a
sociabilidade é muito importante; 3) comer direito, incluindo alimentos
funcionais que ajudam contra a depressão (banana, chocolate, linhaça, peixes
com ômega 3, como sardinha e salmão); 4) fazer sexo todos os dias, já que o
sexo é um potente mobilizador das energias vitais...a masturbação também vale,
já que o corpo não diferencia os efeitos químicos alcançados “por mérito próprio”;
5) ouvir música, porque no auge da depressão nem disso eu tinha vontade. Mas
sobre isso vale a pena um parágrafo.
Em muitos casos conversar com um especialista (psicólogo ou
psiquiatra) pode ser a única solução para superar uma ideia fixa. Pois há
pessoas que quanto mais se sentem mal, mais procuram vibrações negativas, como
músicas deprê. Mas como é possível
mudar o que se sente dessa forma? Se uma música foi escrita para expressar um
sentimento negativo, essa será a sua vibração a cada vez que o disco rodar. É
verdade que as melhores músicas são essas, mas a questão é o momento de
ouvi-las. E talvez possamos lembrar que se o que sentimos já motivou obras de
arte tão sublimes, é porque talvez não seja um sentimento tão incomum e que
talvez possamos fazer alguma coisa de útil com ele, assim como os que vieram
antes de nós que se expressaram através da arte. Ou alguém diria que a morte
vale mais do que ouvir Jimi Hendrix? Há coisas que quanto mais, melhor, e é por
essas coisas que vale a pena viver!
Assim, deixando o tempo passar, conseguindo viver a vida aos
poucos, sem muita pretensão, pode ser possível atravessar o túnel escuro e,
quando menos se espera, engajar-se em planos de médio e longo prazo. Eu
consegui! Tente você! Tente outra vez...
muito legal o seu blog, Marcelo! comentarei ainda hoje a sua mensagem. grande abraço!
ResponderExcluirOi Abel,
Excluirbom tê-lo por aqui.
Também gostei do teu, que aproveito pra divulgar: conhecerparaprevenir.
Seja bem vindo e um abraço!
Acabei de ler seu texto. Muito bom! Vou relê-lo e talvez volte até a comentar mais sobre.
ResponderExcluirEscrever ajuda muito, mas muito! Quando eu nem pensava em usar computador, às vezes escrevia, em forma de rimas, sobre o que eu sentia. E eu ficava melhor. Era tipo uma catarse. E eu penso que músicas deprê também são uma catarse. Nada melhor do que ouvir Roger Waters ou Joy Division, quando a gente está bem pra baixo.rs
Uma sugestão: porque vc não coloca o link para a gente seguir seu blog?
Abraços!
Eustáquio,
Excluirpois é, também faço rimas como catarse, sei bem como é a sensação de as coisas parecerem se encaixar quando, por um mísero momento, parece que conseguimos expressar o inexprimível...
Sobre músicas deprê, eu também tenho o hábito (ou vício) de não evitá-las quando estou mal. Mas aprendi a controlar a dose e a evitar alguns coquetéis na mesma noite, como Nirvana acústico + Loki...
Acho que a dose varia conforme o momento, já que toda deprê se divide em diferentes fases, e conforme o nosso temperamento. Por exemplo, quando estou mal Nirvana me põe mais pra baixo, e o que me levanta é Jimi (recomendo, por exemplo, Lover Man, Fire e Purple Haze), e isso já há uns cinco anos.
Vou adotar no blog a sua sugestão sobre o link de seguidores.
Abraço!