quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Tente outra vez


Não lembro quando eu comecei a escrever, mas em algum momento esse hábito se tornou necessário para a minha sobrevivência. Tenho a sensação de que um pensamento colocado no papel pode ser encarado como se pela primeira vez, e que isso me ajuda a me ver de fora, como se visto por outra pessoa. Muitas vezes eu tive a sensação de só poder ter certeza do que vivi depois de escrever. O papel é um espelho mágico.

Por isso, recomendo a quem sofre que procure a sua imagem refletida em um papel. Um bom ponto de partida é escrever tudo o que gostamos de fazer, lembrar as coisas boas que já vivemos, tomar nota das pessoas que nos amam ou que simplesmente gostariam de nos ver novamente. Vale a pena viver, nem que seja para esperar a próxima boa conversa. Em seguida, pode-se tomar nota dos planos: plano B, plano C, etc.. Não é porque o plano A não deu certo que precisamos nos sentir fracassados. Há muitos modos de viver. E todos nós precisamos pelo menos de um plano B.

Outra coisa importante é que a depressão pode estar na origem do desânimo, do pessimismo e da vontade de morrer. Nem um desses fatores isolados mata, mas a combinação deles sim, e o nome da combinação é depressão. Ela tem efeitos químicos no corpo, e a cada dia se torna mais difícil reagir sozinho e, portanto, mais necessário pedir ajuda. O melhor indicador de que a depressão tomou o controle é quando perdemos a vontade de fazer qualquer coisa, mesmo as coisas que sempre gostamos de fazer. Ir ao mercado pode parecer um desafio insuperável. Normalmente esse estado é prolongado, pois não conseguimos simplesmente pensar que “amanhã é outro dia”, pois tudo leva a crer que “amanhã é o mesmo dia...”. Portanto, é preciso primeiro cuidar da depressão (com psicoterapia que ajude a lidar com a causa emocional, e com remédios psiquiátricos em casos extremos), e deixar para pensar na vida e na morte - um dos principais temas da literatura... - depois. Afinal, não é racional se matar em função de uma situação circunstancial que pode ser superada, ainda que possa durar mais do que gostaríamos. Chegar a um resultado inevitável influenciado por um estado emocional negativo não é pensar livremente e, portanto, não é uma decisão racional.

No auge da depressão, aprendi a viver um dia de cada vez. Assim, comecei a reagir gradualmente, primeiro através das metas de curto prazo, uma por dia (ir ao banco já contava...). Coloquei no papel algumas estratégias para sair do torpor e para superar a afasia: 1) praticar atividade física (que a ciência já provou que contribui quimicamente para o equilíbrio emocional); 2) encontrar pelo menos um amigo ou parente por mês, pois recuperar a sociabilidade é muito importante; 3) comer direito, incluindo alimentos funcionais que ajudam contra a depressão (banana, chocolate, linhaça, peixes com ômega 3, como sardinha e salmão); 4) fazer sexo todos os dias, já que o sexo é um potente mobilizador das energias vitais...a masturbação também vale, já que o corpo não diferencia os efeitos químicos alcançados “por mérito próprio”; 5) ouvir música, porque no auge da depressão nem disso eu tinha vontade. Mas sobre isso vale a pena um parágrafo.

Em muitos casos conversar com um especialista (psicólogo ou psiquiatra) pode ser a única solução para superar uma ideia fixa. Pois há pessoas que quanto mais se sentem mal, mais procuram vibrações negativas, como músicas deprê. Mas como é possível mudar o que se sente dessa forma? Se uma música foi escrita para expressar um sentimento negativo, essa será a sua vibração a cada vez que o disco rodar. É verdade que as melhores músicas são essas, mas a questão é o momento de ouvi-las. E talvez possamos lembrar que se o que sentimos já motivou obras de arte tão sublimes, é porque talvez não seja um sentimento tão incomum e que talvez possamos fazer alguma coisa de útil com ele, assim como os que vieram antes de nós que se expressaram através da arte. Ou alguém diria que a morte vale mais do que ouvir Jimi Hendrix? Há coisas que quanto mais, melhor, e é por essas coisas que vale a pena viver!

Assim, deixando o tempo passar, conseguindo viver a vida aos poucos, sem muita pretensão, pode ser possível atravessar o túnel escuro e, quando menos se espera, engajar-se em planos de médio e longo prazo. Eu consegui! Tente você! Tente outra vez...
 
 
 
 
 

4 comentários:

  1. muito legal o seu blog, Marcelo! comentarei ainda hoje a sua mensagem. grande abraço!

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    1. Oi Abel,
      bom tê-lo por aqui.
      Também gostei do teu, que aproveito pra divulgar: conhecerparaprevenir.
      Seja bem vindo e um abraço!

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  2. Acabei de ler seu texto. Muito bom! Vou relê-lo e talvez volte até a comentar mais sobre.

    Escrever ajuda muito, mas muito! Quando eu nem pensava em usar computador, às vezes escrevia, em forma de rimas, sobre o que eu sentia. E eu ficava melhor. Era tipo uma catarse. E eu penso que músicas deprê também são uma catarse. Nada melhor do que ouvir Roger Waters ou Joy Division, quando a gente está bem pra baixo.rs

    Uma sugestão: porque vc não coloca o link para a gente seguir seu blog?

    Abraços!

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    1. Eustáquio,
      pois é, também faço rimas como catarse, sei bem como é a sensação de as coisas parecerem se encaixar quando, por um mísero momento, parece que conseguimos expressar o inexprimível...
      Sobre músicas deprê, eu também tenho o hábito (ou vício) de não evitá-las quando estou mal. Mas aprendi a controlar a dose e a evitar alguns coquetéis na mesma noite, como Nirvana acústico + Loki...
      Acho que a dose varia conforme o momento, já que toda deprê se divide em diferentes fases, e conforme o nosso temperamento. Por exemplo, quando estou mal Nirvana me põe mais pra baixo, e o que me levanta é Jimi (recomendo, por exemplo, Lover Man, Fire e Purple Haze), e isso já há uns cinco anos.
      Vou adotar no blog a sua sugestão sobre o link de seguidores.
      Abraço!

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