Uma das minhas teorias sobre a vida é que os filhos de pais
broncos tornam-se hipersensíveis. Temos que aprender desde cedo a antecipar as
reações de quem nos oprime sem aviso e injustamente. Como não somos ouvidos,
não vemos sentido em tentar explicar o nosso ponto de vista. E foi assim que há
muitos anos coloquei uma arma na cabeça. Imediatamente me ocorreu a ideia de
deixar uma carta, uma acusação final ao meu pai, assim eu finalmente teria a
última palavra. E foi assim, ao escrever uma carta, que eu sobrevivi. Refleti
sobre a reação das pessoas que me amavam ao lerem as minhas tentativas de
explicação. Lembrei que, se me amavam, não aceitariam nenhuma explicação para o
fato de eu tirar a minha vida, porque eles me amavam independentemente de qualquer
coisa. Eles não precisavam de nenhuma explicação. Só me queriam vivo.
Então senti que, ainda que me matar fosse um ato justo em
relação ao meu pai, seria injusto com todas as outras pessoas. E mesmo em
relação ao meu pai, acabei concluindo que me matar apenas permitiria que ele
tivesse a última palavra, que não seria a minha carta mas a interpretação que
ele faria da carta. E ele sempre fez prevalecer as interpretações dele na
família. Logo, não seria diferente. Calando-me para sempre eu confirmaria a
teoria, pronunciada sempre na presença de outras pessoas, de que filhos de pais
fortes se tornavam fracos. Não, ele não teria a última palavra sobre mim.
E não teve. Mais de dez anos depois constato que eu inverti a
ascendência moral que ele tinha sobre mim. Hoje ele me escuta, respeita as
nossas diferenças (que ele costumava ver como motivo de acusação ou de
provocação), e a partir disso conseguimos ter uma boa convivência. Isso foi
alcançado no momento em que eu decidi não ser mais afetado pelas opiniões dele
a meu respeito. Eu me dei o respeito que queria ter. E com isso ele se tornou
apenas uma criança velha.
Bem interessante o seu relato. Meu pai também era muito rude. A gente não se dava bem. E com todo seu autoritarismo, ignorância e estupidez, penso também que ele era um fraco. Minha mãe foi forte por o tolerar por muitos anos, e depois tolerar seu segundo e último conjuge, pior ainda do que meu pai... Forte por criar a mim e a meu irmão, mas, ela era uma mulher frágil também.
ResponderExcluirE a triste verdade é essa: eu e meu irmão somos bem sensíveis... e fracos!
Eustáquio,
Excluirpois é, eu aprendi a não ver o meu pai nem como vilão nem como vítima da vida (que o teria obrigado a ser rude). Mas ele aprendeu a ser o que é porque só conseguiu reagir à vida se tornando uma pessoa rude, um resultado que reflete um conjunto de características que incluem as fraquezas. Ele tomou muitas decisões pra ser quem é, mas tomou as decisões que conseguiu tomar, nem melhores nem piores.
Acho que é muito complicado classificar as pessoas em fracas e fortes exatamente porque somos formados por muitas características. Em algumas situações da vida podemos agir melhor que em outras, e muitas vezes um melhor resultado é alcançado agindo-se de forma diferente do que uma pessoa "forte" agiria. Um bom exemplo é o modo como os pais rudes nos criaram, pois essa experiência nos ensina que ser um bom pai é ser paciente, compreensivo e interessado. Da mesma forma, ficar em silêncio muitas vezes é não apenas mais sábio, como também pode levar a melhores resultados. E pode exigir muito esforço ficar calado em algumas situações, de modo que uma pessoa considerada "forte" não conseguiria, porque em geral não se considera como uma de suas características o auto-controle.
Por isso eu disse no post que se eu tivesse me matado teria confirmado a tese tosca do meu pai, de que filhos de pais fortes são fracos (sensíveis sim, fracos não). Porque eu acho que tenho inúmeras características que ele não tem, e uma delas é a sensibilidade. Afinal, essa não deveria ser qualidade mais valorizada em um mundo melhor, em que as pessoas compreendessem as suas diferenças e se esforçassem para sentir o que o outro sente, tentando colocar-se em seu lugar sem julgá-lo...? É o que se pretende com a máxima cristã de "fazer pelo outro o que gostaríamos que ele fizesse por nós se estivéssemos em seu lugar". E eu acho que no nosso mundo existem muitos mundos, porque as pessoas se atraem por afinidade e, em consequência, acabam ajudando a criar o mundo em que vivem.
Abraço!